Escrevo por aqui falando sobre o que os eventos deixam nas pessoas, mas chegou a hora de escrever sobre o que eles cobram de quem os faz, começando por mim!
Faz mais de um mês que eu não escrevo aqui. E não foi por falta de assunto (rolou a 2ª edição do workshop, eu tenho agora um estagiário, o Rock in Rio está muito próximo), tanta coisa para dividir com você.
Mas eu não tenho “sobrado”. Chego cedo e saio tarde do escritório e o que resta de mim no fim do dia não dá para por em uma frase.
Escrever aqui no Evenculturismo, que eu gosto demais fazer, virou mais uma coisa na lista das que eu devo e não consigo. E o pior: mesmo sem escrever, a sensação não é de alívio. É de dívida.
Semana passada eu comi uma pizza inteira sozinho em plena segunda-feira. Não por fome. Por exaustão. Por ansiedade. Por querer descontar em algo uma semana que começou ruim já no seu primeiro dia. Era o único ato de prazer que cabia num dia em que eu já não tinha energia para mais nada. E foi ali, com a caixa vazia na frente, que eu percebi que precisava parar e olhar para isso de frente.
Hoje faltam exatamente um mês para o festival, mas eu já estava assim antes mesmo desse marco. Essa é a parte que me assustou. Não é a reta final que está me engolindo.
Este texto é diferente dos que costumo escrever e sinto que realmente precisava dividir isso. Sempre falei sobre o que o evento deixa nas pessoas que o vivem: a memória, o encontro, o rastro. Hoje eu preciso falar do outro lado da mesa. Do que o evento cobra de quem o constrói. Porque esse lado quase nunca é dito em voz alta.
A profissão que não te deixa desligar
Trabalhar com eventos tem uma característica que quase nenhuma outra profissão tem na mesma intensidade: a data não se move. O evento acontece no dia marcado, o portão abre na hora marcada aconteça o que acontecer. Não dá para adiar, não dá para pedir mais uma semana, não dá para entregar 90%. Ou está pronto, ou falha na frente de todo mundo.
Essa pressão temporal é constante e não tem trégua. Somada a ela vem o resto: dezenas de pessoas com expectativas diferentes puxando você ao mesmo tempo (cliente, fornecedor, equipe, áreas internas, lideranças). Imprevisto virou rotina, não exceção. Estamos, a partir de agora, só resolvendo questões novas e os picos de produção desregulam sono, comida, corpo e humor de um jeito que a gente aprende a chamar de normal.
O mais perverso é a impossibilidade de desligar. Mesmo fora do horário, mesmo em casa, a cabeça continua no evento conferindo, antecipando o que pode dar errado, checando mensagem. O corpo deita no sofá, mas a mente nunca sai do venue. E aí o descanso deixa de existir de verdade.
O cenário é pior do que eu imaginava
Durante um tempo eu achei que era eu. Que eu não estava dando conta, que era fraqueza minha, que os outros pareciam segurar melhor, mas ao parar para analisar, os outros não “desligam” nem na hora do almoço ou quando há a oportunidade de confraternizar.
Fiz uma leve pesquisa e vi que o buraco é bem mais embaixo. Achei números recentes sobre profissionais de eventos no Brasil onde 80% dos produtores de evento dizem que o trabalho já prejudicou a saúde física, quase 82% relatam ansiedade e perto de 45% descrevem quadros de burnout. Os gatilhos são exatamente o dia a dia da profissão: mudança inesperada, prazo apertado, falha de comunicação, demanda excessiva, horário irregular, resolvendo um problema atrás do outro.
Quando eu li esses números, duas coisas aconteceram ao mesmo tempo. Primeiro, o alívio de entender que não era só comigo. Depois, um susto maior: se isso é tão generalizado, então a gente construiu um setor inteiro em cima do desgaste das pessoas e passou a tratar isso como se fosse o preço natural de amar o que faz.
Eu mesmo, quando entrevisto alguém para trabalhar comigo avisava que a vida social ia diminuir, que é muito trabalho.
Não é natural. É uma escolha coletiva que ninguém lembra de ter feito.
Eu não vim aqui com a solução
Seria fácil e desonesto, terminar este texto com dicas de autocuidado… Beba água, faça pausas, estabeleça limites, delegue mais. Tudo verdade, tudo útil, e tudo insuficiente porque o problema não é individual e solução para problema é estrutural.
A verdade é que eu não tenho a resposta. Acredito que ela existe, mas ela não cabe numa mudança de rotina minha. Ela exige mudar a cultura de um setor inteiro: a forma como o mercado encara prazo, a forma como trata a pessoa que entrega, a ideia enraizada de que o bom profissional de eventos é o que se sacrifica mais. Isso não muda em um mês, nem em um ano. Muda em uma geração, se a conversa começar agora.
O que eu posso fazer, hoje, é o primeiro passo dessa conversa: parar de fingir que está tudo bem. Nomear o que quase todo mundo do setor sente e quase ninguém diz. Escrever este texto, mesmo cansado, foi a minha forma de dizer que tem mais gente igual a você e que fazer eventos não é só glamour.
Porque enquanto a gente tratar o esgotamento como o preço de entrada da profissão ou como algo normal que você avisa os amigos que vai se ausentar da data x a data y, ninguém vai mudar nada. A mudança começa no dia em que a gente parar de ter orgulho de estar exausto.
Eu vou voltar a escrever aqui, talvez só depois do festival, talvez com textos mais curtos, mas vou voltar porque escrever é justamente uma das coisas que me faz refletir e que me tira dessa rotina corrida que é produzir eventos. Recuperar isso já é, para mim, um pequeno ato de resistência contra o modelo que me trouxe até aqui.
Não tenho respostas e seguirei me questionando:
Em que momento a gente combinou que amar o que faz significa aceitar coisas que você faria diferente?
Não tenho a resposta, mas desconfio que ela começa a aparecer quando gente suficiente admite, em voz alta, que a pergunta existe. Se você se reconheceu em alguma parte deste texto, divida-o com mais pessoas nem que seja só para a gente saber que não estamos sozinho nessa.




Oi Rafa, sabemos a loucura que são os eventos, os stakeholders e suas demandas, mega eventos como o seu então... ki bom que achaste um espaço para escrever e dividir com nós, não como mais uma tarefa e sim como desabafo, sim Amigo, nada melhor como eventólogos para te entender, nada melhor como pílulas de descompressão (que nao seja uma pizza inteira senão tu fica gordo, mas se permita comer pizza, dar uma volta no quarteirão, tomar um picolé), isso dá um refresh no drive pessoal. E de repente, se tiver mega puxado, tem terapia que ajuda nesse turbilhão do trampo, do cotidano, das demandas internas e externas. RESpira, não PIRA e se for PIRAR pede ajuda. Fique bem !!!